Império militar na mira: Pressão sobre conglomerado cubano levanta debate sobre interesses dos EUA na ilha
Poucos meses após a captura de Nicolás Maduro por Washington, as movimentações recentes também levantam questões sobre até que ponto o modelo aplicado em Caracas pode ser reproduzido com sucesso em Havana
Por Amanda Scatolini
A pressão americana sobre Cuba nos últimos meses levou a ilha caribenha a uma crise sem precedentes, com apagões prolongados, escassez de combustível e uma população cada vez mais vulnerável. Agora, o novo capítulo na estratégia de Washington contra o governo cubano, somado ao indiciamento do ex-presidente Raúl Castro, também passa pela Gaesa, o megaconglomerado militar responsável por administrar entre 40% a 70% da economia do país. Poucos meses após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, as movimentações recentes levantam questões sobre os interesses da administração de Donald Trump no país e sobre até que ponto o modelo aplicado em Caracas pode ser reproduzido com sucesso em Havana.
A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A) virou alvo de Trump em maio, após uma nova ordem executiva que ampliou as sanções contra o país. A medida também teve como alvo sua diretora, a brigadeira-general Ania Guillermina Lastres Morera, entre outras empresas e pessoas ligadas ao grupo.
A Casa Branca argumenta que a pressão tem como objetivo "promover a liberdade econômica e a democracia" na ilha caribenha, culpando o grupo pela crise no país. "Enquanto o povo cubano sofre com a fome, doenças e o subinvestimento crônico em infraestrutura crítica, como a rede elétrica, grande parte dos lucros das atividades da Gaesa é desviada para contas bancárias secretas no exterior", declarou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, em um comunicado no início do mês.
Criada na década de 1990 sob controle das Forças Armadas, a Gaesa administra desde hotéis e resorts até portos, bancos, remessas financeiras, telecomunicações, logística, comércio varejista e construção civil na ilha. Pouco se sabe, porém, sobre sua estrutura interna e até onde se estendem os seus braços na economia cubana. O grupo não presta contas publicamente nem à Assembleia Nacional, sendo raramente mencionado até mesmo pela imprensa estatal — uma busca no jornal oficial Granma durante a apuração desta reportagem não retornou nenhuma referência direta ao conglomerado ao longo da última década.
No caso venezuelano, os EUA conseguiram explorar as divisões internas dentro do chavismo, encontrando interlocutores interessados em negociar. Em Cuba, porém, não existe nem uma oposição organizada de peso, como a liderada por María Corina Machado, nem figuras equivalentes ao papel exercido por Delcy Rodríguez, vice de Maduro que assumiu a Presidência interina após sua captura.
— Não há figuras reformistas dentro do aparato de poder, é um sistema muito mais unificado — explica ao GLOBO a socióloga cubana Marlene Azor. — Os reformistas foram caindo pouco a pouco. A concentração de poder em Cuba é maior, e o número de pessoas no topo do poder é muito menor do que na Venezuela.
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Reportagem completa: O Globo